quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Abra a mente à liberdade: artesãos nômades­



Os “hippies” foram assim reconhecidos no movimento de contracultura, nos anos 60, quando muitos jovens, impulsionados por músicos e artistas, passaram a contestar a sociedade e a pôr em causa os valores tradicionais e o poder militar-econômico da época. Sintetizada no lema “Paz e Amor”, a postura política hippie baseou-se na luta por direitos civis, igualdade e antimilitarismo, fazendo protestos em favor do fim da Guerra do Vietnã, do consumo exagerado, de uma sociedade imersa em heterogenia hipocrisia.


Hoje em dia, pode-se dizer que há em torno desse conceito uma estigmatização da sociedade. A mídia e a maioria das pessoas romantiza o termo, descrevendo-o como remanescência do passado, ligado à filosofia do amor, do não consumismo, da crítica a valores morais; ou, então, os define como sujos, drogados, agressivos, mendigos, indocumentados... A verdade é que há muito além nisso do que conceitos prontos podem definir. Ser um “hippie” brasileiro no século XXI é compartilhar de um rico e dinâmico processo de mestiçagem. É sim ser aceito como um herdeiro do movimento hippie, e ainda mais do que isso: é se lançar na busca de questionamentos, de novas maneiras de se organizar e assumir a postura de inquietação diante modelos, estereótipos e tabus.

O que há então é uma atemporalidade do movimento nômade, deste fenômeno que sempre existiu na história da humanidade, assumindo apenas aspectos diferentes em cada época.

Liberdade: palavra bastante recorrente em nossa tarde de conversas com os hippies que habitam a Praça Sete ou que nela trabalham, esta localizada na capital mineira. Já dizia Cecília Meireles: Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.” Desejo de muitos, opção de vida de poucos que tiveram a coragem de decidir por um modo de vida embasado nesse ideal – a liberdade de escolher ser o que quiser, seguir seus próprios caminhos e padrões, decidir por aquilo que julga com seus próprios valores. Escolher não ser conivente e omisso em uma sociedade que ignora e repudia padrões de vida diversos daquele considerado “comum”, ideal.


Muitos de nós passamos pelo centro de Belo Horizonte sem perceber a presença dos hippies, a existência do trabalho artesanal deles, a riqueza cultural presente. Hippies, artesãos nômades ou malucos de estrada - como são reconhecidos. Elaboram seus trabalhos na própria praça e lá mesmo os expõem, convidando os transeuntes a conhecer suas produções artísticas, sendo, muitas vezes, ignorados. Conversamos com várias pessoas no local e recolhemos algumas informações. Aqui, em nosso trabalho, exporemos os fatos mais relevantes dessa realidade.

Fizemos algumas entrevistas com os artesãos que ali estavam. No início, encontravam-se um pouco apreensivos em conversar com desconhecidos, tirar fotos, gravar filmes, mas ao longo de tudo, fomos cada vez mais bem recebidas e atendidas. Percebemos que a cidade de Belo Horizonte é pouco receptiva em relação aos artesãos nômades. Aqui, eles sofrem mais preconceito e não recebem nenhum tipo de apoio da prefeitura; ao contrário, sofrem com questões de abuso de poder e desrespeito à suas integridades física e moral.

Conversando com um artesão que não autorizou a divulgação de seu nome, pedindo que nos referíssemos a ele usando seu apelido “BH”, foi mencionada a falta de respeito da policia que não assegura os direitos dos artesãos, e intimida-os. Esse quadro só apresentou alguma melhora nas últimas semanas. O Centro de Defesa dos Catadores de Papelão, que atuou juntamente com os artesãos, conseguiu diminuir as apreensões e os abusos por parte da polícia. A Polícia Militar não respeitou o direito de ir e vir dos "malucos", restringindo e até mesmo proibindo algumas pessoas de desfrutarem de um ambiente público. Entretanto, assim como BH citou, no artigo 5º da Constituição Federal, IX é assegurada livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença. Dessa forma, a ação dos policiais e fiscais, apreendendo materiais, não só o artesanato exposto, mas também utensílios de trabalho e objetos pessoais, configura um abuso de autoridade, uma inconstitucionalidade. Fato como esse ocorreu no dia 24 de setembro desse ano, em que o Centro-Sul da Prefeitura de Belo Horizonte juntamente com a Polícia Militar (PM) promoveram uma ação de “autuação de ambulantes que comercializavam produtos em desacordo com o Código de Posturas da capital”, segundo o que foi divulgado pelo Jornal O Tempo. “Foram vistoriados 15 hippies que vendem artesanato na região. O material comercializado por eles foi apreendido. Durante a operação quatro pessoas foram multadas em R$ 1.200 por vendas irregulares. Outras quatro pessoas foram presas por desacato a autoridade. A operação gerou grande revolta entre os hippies e a população que passava pelo local no momento das apreensões.


Os hippies estão em seu direito de expor sua arte e viver da forma que consideram a melhor. Não ferem nenhum princípio, apenas trabalham e expõem seu trabalho em um local público. A apreensão violenta das ferramentas, objetos e mercadorias dos hippies fere a dignidade humana. A atividade não é regulamentada pela prefeitura, e é tratada com base no artigo 118 do Código de Posturas do município de Belo Horizonte: “Art. 118 - Fica proibido o exercício de atividade por camelôs, toreros e flanelinhas no logradouro público”.

Os hippies produzem um objeto cultural, seu artesanato, e esse não pode ser equiparado à produtos industrializados, vendidos em camelôs. A atividade dos hippies é parte de uma cultura diferenciada, de um modo de vida diferenciado e a solução é a regulamentação da atividade e não a violência e o preconceito.

Descobrimos também a atuação dos chamados “fiscais do sono”. A função destes é não permitir que os moradores de rua durmam além das 6h da manhã no centro da cidade. Se qualquer “maluco” estiver dormindo, é acordado por meio de “porretadas”.

“BH” deixa muito clara sua posição a respeito da expulsão dos hippies da Praça Sete. Tal ação governamental faz parte do processo de “higienização” da cidade de Belo Horizonte para a Copa do Mundo. A mídia mineira é controlada de tal modo que objetiva criar consciência na população no sentido de legitimar a expulsão dos “malucos” da praça. “Mídia em Belo Horizonte é comprada e elitista, os Policiais Militares se sentem donos da cidade, no entanto, todos somos cidadãos, todos possuímos direitos”. BH acredita nisso, e aponta Belo Horizonte e o Rio de Janeiro como as cidades onde existem maior abuso de autoridade dentre as localidades que ele já teve a oportunidade de conhecer.

Além disso, há a questão da limpeza da Praça Sete, muitos afirmam que a sujeira e lixo ali existentes são todos derivados exclusivamente dos artesãos, várias vezes ocorreu situações em que apenas a parte superior da praça recebe limpeza com jatos d’água e, assim, todo restante do espaço (onde estão os “hippies”) não é higienizada pelo serviço público. Um dos entrevistados, Moacir Gaspar, chegou a admitir que se sente realmente humilhado diante essa situação.

Um outro fato curioso sobre o qual tomamos conhecimento é a proibição dos “malucos” exporem seu trabalho na “feira hippie”, ou feira de artesanato, ou feira da Afonso Pena, que ocorre todos os domingos. O entrevistado “BH” nos conta que em Vitória, no Espírito Santo, existe um espaço nas feiras de artesanato destinado aos “malucos” que estão de passagem pela cidade, muito diferente do que ocorre em Belo Horizonte.


Mas ando atento na intenção da harmonia, mais qualidade nos sentimentos. Sempre sinto algo diante do ataque furioso, mas nada destrutivo. Mais próximo da tristeza que da raiva. Uma tristeza parecida com cansaço. Às vezes, acho graça dos absurdos, um riso com um fundo amargo. É imprescindível seguir adiante, junto com o tempo, levando causa e conseqüência em consideração.

Além do mais, pra que estender um contato que não desejo? Silenciar é a melhor maneira de abreviá-lo.” Eduardo Marinho


Grupo:
Marina Lima

Mayana Leôncio

Olívia da Paixão

Tauany Zangheri

6 comentários:

Anônimo disse...

marina lima, uma fotógrafa e tanto! haha

Marina Lima disse...

Muito obrigada!

Grupo: Nayara Medrado, Rayhanna Fernandes, Tatiana Resende (direitos de personalidade em vilas e favelas turma B) disse...

O que julgamos mais interessante nesse trabalho foi a forma de abordagem escolhida. As integrantes do grupo não se limitaram a uma abordagem pessimista, colocando os personagens como coitados que não têm nenhum direito reconhecido e que precisam ser resgatados imediatamente pelo Estado . Buscaram abordar o tema tomando-se por base a perspectiva dos próprios personagens que protagonizam a vivência desses direitos . Investigaram e retrataram a forma como eles vivem, a sua forma de pensar, a sua concepção de "vida boa", etc. Isso permitiu analisar a situação na qual eles se encontram de uma forma diferente da tradicional: não são coitadinhos, marginalizados da sociedade apartados de qualquer direito e/ou capacidade de escolha, mas sim cidadãos que fizeram uma escolha de vida que significa uma expressão ampla de sua própria autonomia da vontade, a qual se espelhou na busca incessante por um ideal comum: a liberdade.
Ao mesmo tempo, apontaram críticas contra uma ideologia estatal excludente e contra o preconceito arraigado na sociedade. Achamos muito bacana o relato ser acompanhado de vídeos e fotos, o que nos permitiu uma maior aproximação com o cenário a ser retratado. O texto foi bem escrito e a apresentação foi muito bem feita também. Enfim, acho que as meninas foram bem-sucedidas na sua proposta, que eu entendi ser justamente mostrar que existem múltiplas perspectivas de vida boa na sociedade, que são justamente expressão do complexo tecido social em que estamos inseridos. Essas perspectivas não podem jamais serem vistas ou tratadas como 'loucas','fora da sociedade' ou similares, quando na verdade são apenas fora do padrão.
PARABÉNS MENINAS!

Anônimo disse...

Achei lindo o trabalho de vocês meninas, parabéns

Letras Hilárias disse...

gostei da ideia de valorização do trabalho dos artesões... conheço muitos que aparecem nesse video ai, que aliás eu gostaria até de saber por onde anda um deles rsrs

Antonio Silva Borges disse...

Ola eu tinho uma duvida eu queria saber quual o nome do q vcs dao a essa primeira imagem e um excelente trabalho parabens